Será que programar com prompts está nos viciando?

Enviar um prompt de comando e esperar uma por uma resposta relativamente incerta. Um misto de expectativa e ansiedade antes da resposta final. Esse fluxo cada vez mais recorrente ao se desenvolver baseado em ferramentas de AI não é incomum. Será que pode causar dependência?

Uma cena cada vez mais comum: um prompt longo para a Gen AI preferida, alguns minutos de reflexão ou multi-tasking e é só acompanhar o robô cuspir linha por linha. Com uma expectativa quase física de "será que vai dar bom?". Já parou para pensar que essa sequência de passos, sentimentos e reações se assemelha com uma outra atividade nada relacionada com desenvolvimento? Com o risco de estar viajando demais, passei a notar clara semelhança entre o fluxo de trabalho do "vibe-coding" (ou do prompt engineering) e as máquinas de caça-níquel dos cassinos. Não seria novidade tal experiência aparecer em contextos digitais.

Programar com IA por prompt com vibe-coding ou como quer que seja chamado hoje em dia, parece acionar o mesmo mecanismo neural que faz caça-níqueis viciarem: a mesma engenharia de incerteza, só que aplicada ao fluxo de trabalho. Pensando em explorar isso com mais cuidado, fui buscar mais fontes. É o que compartilho aqui agora.

O mecanismo: recompensa que não dá pra prever

Caça-níqueis são aleatórios por projeto e não por mera coincidência. Além disso, o tipo de aleatoriedade importa. Reforços entregues em razão variável — recompensas que chegam depois de um número imprevisível de tentativas, não a cada N tentativas fixas — produzem o padrão de resposta mais persistente e mais resistente à extinção. Tirar o padrão fixo é o que faz a diferença: o cérebro não consegue prever quando o próximo "sim" vem, então continua tentando.

O motivo de alguém persistir nas tentativas (ou na atividade), no nível biológico, acaba por se transferir da recompensa para a incerteza sobre ela. O neurocientista Wolfram Schultz mostrou que neurônios de dopamina disparam mais forte não quando uma recompensa chega, mas quando ela é uma surpresa: mais dopamina quando o resultado é melhor do que o previsto, menos quando é pior — o chamado erro de previsão de recompensa. De volta ao cassino, as máquinas ali vendem um entretenimento baseado em repetição de erros de previsão que causam prazer eventual.

Essa engenharia já tinha saído do cassino

Antes da IA, as redes sociais já tinham importado essa engenharia pro bolso de todo mundo. Tristan Harris, ex-"design ethicist" do Google, resume bem: "quando tiramos o celular do bolso, estamos jogando uma máquina caça-níquel" pra ver que notificação chegou. Puxar pra atualizar o feed, deslizar perfis, esperar a próxima publicação carregar: é o mesmo roteiro de ação incerta, espera curta, resultado surpresa. Segundo Harris, caça-níqueis físicos faturam nos EUA mais do que beisebol, cinema e parques temáticos somados, e o vício neles se desenvolve de três a quatro vezes mais rápido do que em qualquer outro tipo de jogo. Aparentemente a indústria de redes sociais foi mais uma beneficiada por anos e anos de estudos em comportamento humano e em práticas antes aplicadas em máquinas de azar.

O mesmo gatilho, dentro do prompt

A interação com chatbots de IA segue exatamente o mesmo roteiro. Você não sabe se a resposta virá como queria, parcialmente certa, ou um nonsense bem-formatado. Assim como no cassino, é essa incerteza, não a utilidade do resultado, que torna a espera interessante. Inclusive um paper catalogou isso com nome próprio: "dark addiction patterns" em interfaces de chatbot, incluindo respostas não-determinísticas, exibição da resposta token por token (em vez de tudo de uma vez) e um tom permanentemente concordante. A própria OpenAI já reconheceu publicamente o potencial nocivo desse tipo de interface.

Claro, tem uma ressalva importante: um caça-níquel tem expectativa matemática negativa garantida — jogar mais, em média, é sempre perder mais. Uma sessão de chat não tem essa garantia simétrica; às vezes você sai dali com um problema resolvido. O mecanismo de vício parece ser o mesmo; o resultado esperado, talvez não.

O fluxo de trabalho que vicia

Chego então ao que mais me interessa no dia a dia: desenvolver software. Programar de verdade é um trabalho difícil, cansativo e frequentemente frustrante: o bug que não aparece, a hora "perdida" tentando entender por que um teste passa localmente e quebra no CI, a sensação de martelar algo que devia ser simples. Já escrevi sobre isso: boa parte do aprendizado real de quem programa vem desse atrito, não a despeito dele.

O vibe-coding inverte essa experiência consideravelmente. Você escreve um prompt, espera, e o resultado aparece praticamente pronto: tela funcionando, rota respondendo, teste passando. Pode-se dizer que a sensação de recompensa, de alívio, é instantânea. Talvez até melhor, porque lhe poupa de boas horas de dificuldade e frustração de um fluxo de trabalho tradicional de desenvolvimento. Não seria força de expressão dizer que a engenharia baseada em prompt funciona como uma bomba dopaminérgica: talvez seja o mesmo erro de previsão positivo que Schultz mediu em macacos — só que a recompensa, agora, é um software aparentemente funcionando.

Quando construí o IronHUD usando vibe-coding, registrei que a velocidade em projetos do zero é real. O que não registrei com tanta clareza naquele momento é que parte do que tornou aquele mês "divertido" não foi o problema técnico sendo resolvido, mas a cadência de pedir e receber, repetida numa velocidade que programação manual não entrega.

No fundo, talvez seja esse descompasso que explica boa parte do vibe-coding: ele entrega o sinal de recompensa — a tela funcionando, os testes passando — antes de qualquer prova de que o resultado é bom. Numa máquina de caça-níquel isso é o produto final. No código, é só o primeiro sintoma; o trabalho real de saber se aquilo presta continua exigindo o mesmo esforço de sempre. Talvez até mais. Mas ainda não está claro se as pessoas querem pagar por esse esforço.


Caio Carrara

Engenharia de Software Estratégica

Mais de uma década construindo sistemas resilientes em times de alta performance. Tenho um olhar humano para produtos de tecnologia, focado em impacto real e soluções sustentáveis.