Reflexões sobre times de plataforma após ler a pesquisa DORA de 2024

O relatório DORA de 2024 diz que a pesquisa anual detectou que a "engenharia de plataforma" causou um efeito negativo inesperado: queda da velocidade e na estabilidade das mudanças. Para quem está no mercado, talvez não seja tão inesperado assim.

Aqui está um resumo bem rápido dos principais dados do Relatório DORA de 2024 a respeito dos achados sobre resultados de times que adotam a chamada engenharia de plataforma:

  • Aumento de 8% na produtividade individual;
  • Aumento de 10% na produtividade dos times;
  • Aumento de 6% na produtividade de entregas e operações;
  • Redução de 8% no throughput;
  • Redução de 14% na estabilidade.

A complexidade de colocar software em produção parece estar crescendo. Isso parece uma consequência natural de vários fatores, como o tamanho e a estrutura dos times, requisitos de negócios, sistemas legados, entre outros. Mas destaco dois elementos que nem sempre são tão visíveis: a falta de uma análise crítica e de uma estratégia clara para simplificar.

O próprio relatório DORA menciona os times de plataforma como uma influência do livro Team Topologies, além de práticas adotadas por empresas como Spotify e Netflix. No entanto, o que vejo com frequência é a falta de uma análise crítica dessas comparações. Muitas empresas, ao enfrentar os primeiros desafios do crescimento, buscam respostas no mercado e na literatura, mas nem sempre adaptam essas soluções à sua realidade. Poucas empresas, se é que existem, possuem a mesma estrutura de times, processos e sistemas que as grandes, principalmente no que diz respeito à capacidade de investimento.

Na engenharia de plataformas, uma grande parte da energia é dedicada a melhorar a experiência do desenvolvedor, criando os chamados golden paths. Esses são fluxos de trabalho altamente automatizados e de autoatendimento, usados pelos desenvolvedores para interagir com os recursos necessários para entregar e operar aplicações. O objetivo desses caminhos é abstrair as complexidades de construir e entregar software, permitindo que o desenvolvedor se concentre apenas no código.

O trecho acima, retirado do relatório DORA, aponta um ponto crucial: abstrair as complexidades do processo de entrega de software. Esse é um tema amplo, mas o mais importante aqui é que as últimas décadas trouxeram transformações rápidas e intensas na forma como entregamos software. E, mesmo assim, o estado atual não é necessariamente o mais produtivo ou o mais eficiente economicamente.

Os times de plataforma surgem justamente para enfrentar essa complexidade na entrega de software, mas muitas vezes sem repensar questões fundamentais da estrutura. Por isso, é essencial focar na simplicidade radicalmente — não apenas criando abstrações. Um bom exemplo disso é a iniciativa da Basecamp, que repensou sua estratégia de uso de clouds públicas fonte. Estimando uma economia de 7 milhões de dólares.

É crucial que as empresas adotem uma abordagem crítica e adaptada à sua realidade. Em especial, pensem radicalmente na simplicidade para lidar com a complexidade crescente na entrega de software.


Caio Carrara

Engenharia de Software Estratégica

Mais de uma década construindo sistemas resilientes em times de alta performance. Tenho um olhar humano para produtos de tecnologia, focado em impacto real e soluções sustentáveis.