Mais boring products, por favor!
No ecossistema digital dominado pela enshitification, a resposta pode ser exatamente o oposto do que a indústria empurra: produtos chatos, focados e sem agenda oculta. O IronHUD e o Eko Reader são minhas tentativas práticas dessa ideia — e esse artigo é o esforço de estruturar a filosofia por trás delas.
O contexto do excesso e da ausência de valor
Instalar um aplicativo novo virou uma espécie de obstáculo em si. Quantas telas de aceite ou propagandas aparecem antes da função que eu queria? Quantas notificações ou permissões ele vai pedir pra ativar? Ultimamente, em meio ao hype da inteligência artificial, nunca foi tão fácil encontrar soluções que prometem revolucionar nossa vida. Com interfaces chamativas, notificações cada vez mais intrusivas e algoritmos enviesados, muitos aplicativos disputam nossa atenção ferozmente — muitas vezes à custa da nossa paz de espírito e saúde mental. A sensação crescente é de que a tecnologia, que deveria ser ferramenta a nosso serviço, muitas vezes nos escraviza com suas demandas, servindo mais aos interesses de quem detém o aplicativo do que aos nossos.
Diante disso, comecei a refletir sobre uma filosofia de design de tecnologia e consumo que venho chamando de "Boring Products" – produtos "chatos" ou "monótonos", não por serem desinteressantes, mas por rejeitarem os excessos em busca de lucro em favor da funcionalidade, da simplicidade, da confiabilidade e do propósito claro. São ferramentas que fazem poucas coisas, mas as fazem bem, sem a necessidade de funcionalidades em excesso.
Escrevo este artigo como uma tentativa de estruturar melhor essa ideia. Começarei relembrando o fenômeno da "enshitification", que descreve a degradação gradual dos produtos digitais. Em seguida, passarei a definir a minha ideia de "Boring Products" e como eles se alinham ao "Slow Movement", uma busca por maior intencionalidade na vida. Compartilharei também como essa abordagem se manifestou em minha própria jornada, com a criação do IronHUD e do Eko Reader, e discutirei os desafios de manter o foco no essencial em um mundo obcecado pela complexidade e pelo 'próximo grande avanço'.
O dilema dos apps mainstream: enshitification e excesso
A degradação gradual da experiência do usuário em plataformas e serviços digitais é um fenômeno que se tornou o padrão. O termo que melhor define essa dinâmica é o "enshitification", cunhado por Cory Doctorow. Em sua essência, a "enshitification" descreve um ciclo vicioso de três fases:
- as plataformas atraem os usuários com uma proposta de valor excelente;
- em seguida, começam a explorar esses usuários para beneficiar seus clientes comerciais (anunciantes, desenvolvedores);
- e, por fim, exploram também esses clientes comerciais para maximizar o lucro dos acionistas, culminando na eventual deterioração e abandono da plataforma.
Podemos observar a "enshitification" em diversas manifestações:
- Algoritmos: Feeds de notícias que priorizam engajamento viciante em detrimento de conteúdo relevante ou cronológico.
- Notificações Intrusivas: Constantes alertas e lembretes projetados para nos puxar de volta ao aplicativo, independentemente de nossa necessidade ou desejo.
- Monetização Agressiva: Aumento da publicidade, paywalls para funcionalidades antes gratuitas e a coleta massiva de dados pessoais para segmentação de anúncios.
- Feature Bloat (Excesso de Funcionalidades): Aplicativos que, ao invés de fazerem uma coisa bem, tentam fazer dezenas de coisas de forma medíocre, tornando-se inchados e confusos. O que chamo de "excesso de nada".
Essa dinâmica desvia os produtos de seu propósito original — servir ao usuário — transformando-os em máquinas de extração de atenção e dados. O resultado é uma crescente sensação de frustração, fadiga digital e uma perda genuína de controle sobre nossa própria experiência digital. A tecnologia, em vez de nos empoderar, parece nos aprisionar em ciclos de consumo passivo e insatisfatório.
Produtos monótonos e a busca pelo essencial
Em contraponto à voracidade da "enshitification", penso em uma filosofia dos "Boring Products" – ou "Produtos Monótonos". O adjetivo "boring" aqui não se refere a algo necessariamente sem graça, mas sim a uma ferramenta que renuncia ao espetáculo e à distração em favor de um foco total na sua função principal. São produtos que não buscam ser "viciantes" ou "engajadores", mas sim úteis e confiáveis, quase invisíveis no dia a dia, exceto pela eficiência com que cumprem suas tarefas.
As características que definem um "Boring Product" são o contrário do que observamos nos aplicativos mainstream:
- Preferencialmente sem AI: A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas quando aplicada sem critério, pode adicionar complexidade e, muito provavelmente, fricção de experiência ao usuário. Um "Boring Product" utiliza a IA apenas quando ela resolve um problema real e inerente à sua função, e não como um chamariz.
- Faz pouco, mas faz bem feito: Em vez de se tornarem canivetes suíços digitais, produtos essenciais (boring) focam em uma ou poucas funcionalidades principais e buscam a excelência nelas. Isso garante clareza de propósito e uma experiência de usuário mais natural.
- Fundamentalmente sem notificações: Respeito pelo tempo e pela atenção do usuário é fundamental. Notificações são mínimas, contextuais e focadas em informações críticas que o usuário optou por receber.
- Interface limpa e minimalista: O design privilegia a funcionalidade, a legibilidade e a facilidade de uso. Não há elementos desnecessários que distraiam do objetivo principal.
- Padrões abertos e distribuição pela web: Abertos por natureza, evitam o aprisionamento em ecossistemas proprietários e podem ser acessados de qualquer navegador, em qualquer dispositivo, promovendo a soberania digital do usuário.
- PWA-Capable (Progressive Web Apps): Existem exceções, mas a maioria dos apps pode ser entregue como PWAs. Oferecem experiência próxima de um aplicativo nativo sem a necessidade de downloads de lojas de aplicativos, combinando acessibilidade web com funcionalidades offline e desempenho.
- Imunes à "enshitification": Sua arquitetura de negócio e design são pensados para resistir à pressão de degradar a experiência do usuário em busca de lucro excessivo ou dados. O valor é entregue diretamente ao usuário.
- Foco nas necessidades do usuário, não no lucro: A prioridade é resolver um problema genuíno e agregar valor à vida do usuário, e não maximizar métricas de engajamento ou receita a qualquer custo.
Essa filosofia encontra um paralelo direto com o Slow Movement, um movimento cultural que defende a desaceleração do ritmo de vida, enfatizando a qualidade sobre a quantidade, a intencionalidade e a experiência consciente. Assim como o slow food valoriza a comida artesanal e local em detrimento do fast food industrializado, os "Boring Products" valorizam a ferramenta digital que serve com propósito e respeito, em vez do aplicativo que busca incessantemente nossa atenção. É uma busca por uma relação mais deliberada e significativa com a tecnologia, onde a ferramenta é um meio, e não um fim.
Construindo o que importa para mim: IronHUD e Eko Reader
A insatisfação com a "enshitification" e a busca por uma relação mais intencional com a tecnologia não são apenas conceitos teóricos para mim; elas se materializaram na criação de ferramentas que uso diariamente. Diante da frustração com as opções existentes no mercado, decidi construir o que realmente atenderia às minhas necessidades, sem excessos ou agendas ocultas. Assim nasceram o IronHUD e o Eko Reader.
O IronHUD é um aplicativo que desenvolvi para o acompanhamento de treinos de musculação, dieta e medidas corporais. Minha jornada pessoal de transformação física, com um retorno intenso ao treinamento de força, revelou uma lacuna: nenhum dos aplicativos disponíveis ofereceria a simplicidade e o foco que eu buscava. Muitos eram repletos de funcionalidades que nunca usaria, com interfaces poluídas ou modelos de monetização que me incomodavam. O IronHUD, por outro lado, foi projetado para fazer apenas o essencial: registrar e visualizar meu progresso de forma clara e eficiente. Ele é um exemplo prático de um "Boring Product": faz poucas coisas, mas as faz bem, servindo diretamente à minha necessidade de autogestão do treino, sem distrações. A experiência de construí-lo, inclusive, rendeu outro artigo sobre o tema do "vibe-coding" e o uso de IAs generativas no desenvolvimento de software, onde detalho os desafios e aprendizados técnicos nesta reflexão.
De forma semelhante, o Eko Reader surgiu da minha vontade de reduzir o consumo de "feeds algoritmizados" — um dos principais vetores da "enshitification" — e retornar a uma curadoria de conteúdo mais consciente e controlada. Em um mundo onde somos constantemente alimentados com informações selecionadas por algoritmos obscuros, o Eko Reader é um leitor RSS minimalista que me permite assinar fontes de notícias e blogs de meu interesse, sem ruído, sem anúncios intrusivos e sem a manipulação de um algoritmo. Ele respeita o padrão aberto RSS, promovendo uma forma mais autônoma e reflexiva de consumir conteúdo da web.
Ambos os projetos são uma manifestação direta da filosofia dos "Boring Products". Eles não buscam dominar meu tempo ou monetizar minha atenção. Pelo contrário, são ferramentas que existem para me servir, para me ajudar a alcançar meus objetivos pessoais de saúde e conhecimento, de forma discreta e eficaz. Eles não são "divertidos" no sentido convencional, mas são profundamente satisfatórios por sua utilidade e por me devolverem o controle sobre minha experiência digital.
Focar no simples em um mundo complexo
A busca pela simplicidade em um produto pode parecer intuitiva, mas, na prática, é um de seus maiores desafios no desenvolvimento de software. Construir um "Boring Product" exige disciplina rigorosa e intencionalidade para resistir à tentação de adicionar mais funcionalidades, seguir tendências tecnológicas ou ceder às pressões do mercado. A complexidade não reside em fazer, mas em não fazer.
Mais do que nunca, estamos na era de constante inovação tecnológica, onde a integração de inteligência artificial, por exemplo, é muitas vezes vista como um imperativo, mesmo quando não agrega valor real à experiência do usuário. Há uma pressão para que produtos "sejam inteligentes", "personalizados" ou "revolucionários", levando a soluções complexas que perdem de vista o problema central que deveriam resolver. Essa corrida por novidades, muitas vezes, serve mais aos interesses de marketing e investimento do que à real utilidade.
Além disso, o modelo de negócio dominante na indústria de tecnologia favorece produtos que capturam e monetizam a atenção e os dados do usuário. Criar um produto que respeita a privacidade, que não busca o engajamento viciante e que simplesmente "faz o trabalho" sem segundas intenções, vai contra essa corrente. Isso torna a sustentabilidade desses projetos um desafio, exigindo modelos de negócio alternativos ou, como no meu caso, um propósito intrínseco de servir a uma necessidade pessoal.
Já discuti em outros artigos sobre os impactos da IA na engenharia de software, onde a complexidade desnecessária e a degradação da arquitetura podem ser consequências de um uso indiscriminado da tecnologia nesta análise e neste debate. Um "Boring Product" se contrapõe a essa tendência, focando na solidez, na manutenibilidade e, acima de tudo, na clareza de propósito, resistindo ao chamado inevitável da complexidade que, paradoxalmente, muitas vezes esconde uma superficialidade funcional.
Escolhas para o nosso futuro digital
Em um ecossistema digital cada vez mais saturado por produtos que disputam nossa atenção e nos empurram para um ciclo de consumo incessante, pensar mais em "Boring Products" parece uma alternativa. Eles nos lembram que a tecnologia deveria ser uma extensão das nossas capacidades, uma ferramenta a serviço dos nossos objetivos, e não uma entidade com interesses próprios disfarçados de "conveniência".
A "enshitification" dos aplicativos mainstream demonstra uma falha fundamental na priorização do usuário. Ao nos voltarmos para produtos que fazem poucas coisas, mas as fazem bem, que respeitam nossa atenção e nossa privacidade, e que resistem à tentação da complexidade desnecessária, estamos reafirmando nosso direito a uma experiência digital mais saudável e significativa. Essa escolha por "Boring Products" é um ato de soberania digital, um passo em direção a um "slow digital living" que se alinha com nossos valores de autonomia e bem-estar.
Questionar os aplicativos que usamos, buscar alternativas que nos empoderam em vez de nos explorar, e até construir as próprias ferramentas quando necessário — como fiz com o IronHUD e o Eko Reader — é uma forma concreta de retomar o controle sobre a própria experiência digital. A simplicidade, o foco e o propósito podem não ser glamourosos, mas em um futuro digital superestimulado, são exatamente eles que representam a aposta mais radical — e a promessa de uma experiência mais humana.
